domingo, julho 05, 2026

El Niño nem começou e já causa estragos em várias cidades do Paraná

O Paraná chega a esta sexta-feira (3/7) com previsão de um El Niño forte ou muito forte entre a primavera e o verão, mas os R$ 16,2 milhões anunciados pelo governo estadual para obras preventivas estão concentrados em apenas três dos 399 municípios.

      A distância entre o risco projetado e o alcance territorial dos investimentos transforma drenagem, pontes, radares e planos de contingência em assunto obrigatório na eleição para o governo do estado.

A nota técnica do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) aponta probabilidade superior a 80% de o fenômeno atingir intensidade forte ou muito forte entre os trimestres de setembro, outubro e novembro e de novembro, dezembro e janeiro. O órgão prevê aumento da frequência das chuvas, acumulados acima da média em todas as regiões, tempestades intensas, descargas elétricas, granizo e rajadas de vento.

A projeção não determina onde ocorrerá o próximo desastre, mas indica uma temporada mais longa de exposição. Chuvas persistentes podem interromper estradas rurais, comprometer pontes, provocar alagamentos, atingir lavouras e elevar os custos de transporte e reconstrução. A metade sul do Paraná tende a receber atenção especial porque historicamente sofre os efeitos mais intensos do El Niño.

O alerta climático ganhou uma demonstração concreta nos Campos Gerais. O tornado que atingiu a comunidade de Imbu, em Reserva, na noite de 28 de junho foi confirmado pelo Simepar em 1º de julho. O fenômeno recebeu classificação F2 na Escala Fujita, com ventos estimados em aproximadamente 200 quilômetros por hora, árvores arrancadas, imóveis destelhados e objetos lançados a grandes distâncias.

O tornado não pode ser atribuído automaticamente ao El Niño. O próprio prognóstico, porém, informa que episódios fortes do fenômeno favorecem ambientes propícios a tempestades severas, com chuva intensa, granizo e rajadas. A diferença é técnica e precisa ser preservada para evitar que uma previsão climática seja transformada em explicação automática para cada evento extremo.

A Defesa Civil orientou as prefeituras a revisar planos de contingência, atualizar o mapeamento de áreas sujeitas a inundações e deslizamentos, limpar galerias, dragar canais e cadastrar abrigos e famílias vulneráveis. O governo informou a existência de 1.353 abrigos cadastrados nos 399 municípios, mas não publicou, nos comunicados consultados, a relação das cidades com planos atualizados nem o prazo de validade de cada documento.

Essa lacuna precisa entrar na campanha eleitoral de 2026. Os candidatos ao Palácio Iguaçu devem informar quanto pretendem reservar anualmente para prevenção, quais regiões receberão radares, como será financiada a drenagem urbana, qual será o apoio ao seguro rural e qual estrutura ficará responsável pela recuperação e manutenção de estradas municipais.

O governo anunciou a contratação de meteorologistas e projetos para novos radares, boias oceanográficas e um sistema antecipado de alertas. Ainda faltam, nos comunicados públicos, o custo completo, o calendário de instalação e a cobertura geográfica dos equipamentos.

O El Niño não respeita fronteiras municipais nem calendário eleitoral. A avaliação da política pública precisa comparar o mapa de risco com o mapa do dinheiro. Sem essa relação, R$ 16,2 milhões podem representar obras relevantes em três cidades, mas não uma resposta estadual dimensionada para a ameaça prevista.

Prefeitos, vereadores, entidades agrícolas e moradores devem cobrar a publicação dos planos de contingência, dos projetos apresentados ao Fecap e do estágio de cada obra.