segunda-feira, novembro 15, 2021

Museu Paranaense se transforma em museu-ateliê para indígenas contemporâneos

No ensaio de abertura do livro “Sobre a Fotografia”, a ensaísta e crítica de arte norte-americana Susan Sontag levanta a hipótese de que as fotografias ampliam as ideias sobre o que vale a pena olhar e sobre o que existe (ou não) no direito de observar. Segundo ela, constituem uma ética do ver. Para Sontag, o que está escrito sobre uma pessoa ou um fato é, declaradamente, uma interpretação.

E um acervo audiovisual composto por mais de mil objetos produzidos em diferentes épocas que buscavam representar o cotidiano dos povos indígenas do Paraná? Um acervo que foi constituído sob a lógica colonial ao longo de muitas décadas e que esteve sob a perspectiva e cuidados de pessoas formadas pelo pensamento eurocêntrico – cientistas, antropólogos, historiadores, museólogos? Quais são os impactos dessas imagens para a sociedade ocidental? Quais são os impactos dessas imagens para os povos indígenas retratados

Questões de revisão historiográfica e ética sobre as imagens têm sido levantadas pela atual gestão do Museu Paranaense (Mupa), com a intenção de promover uma reflexão decolonial sobre o seu próprio acervo. Essas ações devem definir os caminhos que o museu deseja trilhar nos próximos anos

Como um dos passos iniciais dessa tarefa, o museu convidou os artistas indígenas contemporâneos Denilson Baniwa e Gustavo Caboco para encabeçar o projeto chamado Retomada da Imagem. Os convidados mergulham juntos nesse conjunto de acervos produzidos por não-indígenas para encontrar as armadilhas, construções e também memórias ali presentes.

O contato dos artistas com estes materiais deve gerar criações artísticas que reafirmam novas narrativas, agora sob a perspectiva dos povos retratados

O Mupa se transforma em museu-ateliê, no qual Baniwa e Caboco fazem uma pequena residência artística e contam com a presença de cinco outros indígenas convidados como interlocutores: Camila dos Santos (Kanhgág), Indiamara Paraná (Xetá), Juliana Kerexu (Mbyá-Guarani), Ricardo Werá (Mbyá-Guarani) e Elida Yry (Mbyá-Guarani).

O público visitante pode acompanhar de perto os processos criativos e a produção de trabalhos realizados dentro do Museu Paranaense. O grupo vai imergir em criações que devem compor a terceira e última etapa do projeto: uma publicação online e multimidiática.

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